Não gostar de quem se gosta
Martha Medeiros
Não que eu goste dos filmes de Woody Allen, eu sou maníaca por Woody Allen. Sabe fã número 1? Pois é. Desde sempre. Vi todos os filmes, tenho alguns em casa, coleciono biografias dele. Eu o vi, ao vivo, tocando clarinete num pub em Nova York. O lugar era péssimo, a comida intragável, a conta uma estupidez, mas ele tocava direitinho, ou eu é que não estava muito a fim de ser exigente. Tiete assumida. Daquelas que quase perde o senso crítico.
Quase. Reparei que nos últimos anos ele não vem mais fazendo filmes que me agrada 100% (que saudades de Hannah e Suas Irmãs, Zelig, Crimes e Pecados, Maridos e Esposas), mas nenhum problema. Antes um razoável Woody Allen do que um excelente As Panteras. Aí fui ver Dirigindo no Escuro, que está em cartaz. E achei infantil. O filme se salva pelo final, mas leva-se cerca de duas horas para chegar ao final de um filme. Foi mais ou menos como assistir Sexto Sentido, I see dead people. Filmes com uma única sacada.
A conclusão que chego é: como é difícil desapontar-se com quem a gente gosta. Porque gostar, seja do que for, é uma relação de fidelidade. Se adoro Chico Buarque, me custa degustar de alguma música que ele tenha composto. Se acho Picasso um gênio, me sinto uma idiota se algo feito por ele não me comove. Se venero os Beatles – e venero – fico constrangida com alguns yeah yeah yeah do seu passado em Liverpool. É chato quando nosso gosto – a gente sempre acha que tem bom gosto – não se realiza. Se Dirigindo no Escuro fosse o primeiro filme de Woody Allen, eu diria: tá, é legal. No máximo. Mas não pode ser apenas legal, é Woody Allen, é grife, é um degrau acima da humanidade. Como pode?
Guardadas todas as proporções, quando alguém me diz “puxa, eu adorava você, mas seu último texto me decepcionou”, entendo perfeitamente o tamanho do desgosto que causei. Porque ninguém costuma entregar seu coração facilmente, a gente se dedica a amar um escritor, um músico, um cineasta, uma atriz, e de repente ele falha – ou não atinge nossa expectativa – e isso soa como traição. É muito mais fácil desgostar de quem nunca se gostou, de quem já implicávamos por antecipação. Mas se, ao contrário, havia amor, quanta decepção.
Posto isso, preciso admitir: estarei sentadinha na última fila – a minha preferida nas salas de cinema – em todos os filmes que Woody Allen fizer, até os seus 130 anos, que é o que eu espero que ele viva. Achei bobo Dirigindo no Escuro, mas ele vai ter que se esforçar muito mais pra me perder.
Domingo, 7 de setembro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.